Mídia e saúde mental: uma abordagem que não ultrapassa o senso comum

Exatamente em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a disseminação da Covid-19 em todo o mundo havia chegado ao estágio de pandemia. A mudança de classificação ocorreu pelo fato de que, além da gravidade da doença, o vírus se espalhou de maneira muito rápida geograficamente e os países precisavam atuar à altura do alerta. Porém, de lá para cá, no Brasil, o que já era preocupante piorou. Por um lado, os índices econômicos não são bons: queda da produção interna em 4%, desempregados ultrapassam a marca de 13,4 milhões, a fome aflige famílias tanto na área urbana quanto na área rural. Por outro, os transportes, que, bem no início, tiveram suas frotas e circulação reduzidas, continuam superlotados nas grandes e médias cidades. Nesse contexto, permanecer em casa para não correr riscos foi um privilégio para poucos, apesar da angústia que o isolamento implica. Todas essas questões afetam a qualidade da saúde mental dos brasileiros, mas não comove a todos. Em uma live em sua conta no Facebook, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Infraestrutura Tarcísio Freitas riram de um suposto aumento de casos de depressão e suicídio entre jovens durante a pandemia, divulgado pelo jornal paranaense Gazeta do Povo, simpatizante da extrema-direita.

Foto: Bruno Cecim/Ag. Pará

Se a saúde mental pouco importa como política pública, o mesmo descaso acontece enquanto ‘valor-notícia’ para a imprensa brasileira. A desestigmatização do assunto, tão recente na mídia quanto em debates no dia-a-dia, ocorre ainda de maneira muito lenta. Além disso, vale lembrar que os aspectos da saúde mental são bem mais abrangentes que ansiedade e depressão, doenças que veículos das mídias hegemônica e alternativa se habituaram a abordar com falhas substanciais. Transtornos de personalidade, de neurodesenvolvimento, dissociativos e tantos outros dos mais de 300 diagnósticos encontrados no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) raramente são comentados.

Para a produção desse texto, acompanhamos como os jornais Brasil de Fato, Folha de S.Paulo, Nexo e O Globo cobriram o tema de 1º de setembro de 2020 a 2 de fevereiro desse ano.

A análise

Escrito pelos psiquiatras Jair de Jesus Mari e Marcelo Feijó de Mello, o artigo ‘O negacionismo na saúde mental’, publicado na Folha de S.Paulo, em 27 de dezembro de 2020, clama por uma política de saúde mental efetiva em nosso país. Os especialistas reclamam das condições atuais do Sistema Único de Saúde (SUS) e da falta de tecnologias adaptadas à nossa realidade, como gestão e teleatendimento, além de salientarem a insuficiência do Sistema antes mesmo da pandemia. O diagnóstico não poderia ser outro: “(…) nossas taxas de suicídio têm aumentado, temos a maior prevalência de ansiedade, depressão e transtorno do estresse pós-traumático do mundo”.

Ilustra o artigo uma foto de pacientes no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais. Na imagem, podemos observar quase uma dezena de idosos durante o horário de refeição, em uma provável tentativa dos autores de causar maior impacto e identificação junto aos leitores. Os psiquiatras seguem criticando o modelo atual ineficaz e enfatizam a necessidade de reformas na assistência psiquiátrica. Porém, deixam claro que “não há sentido algum destruir a estrutura existente” e fazem uma referência direta, por meio de um hiperlink, à tentativa de revogação do governo Bolsonaro das portarias que sustentam políticas de saúde mental, também publicada no site da Folha, em 7 de dezembro de 2020.

Jesus Mari e Feijó de Mello também comentam rapidamente a reforma psiquiátrica, em uma tentativa falha de diferenciá-la da reforma da assistência psiquiátrica. Falha porque nem mesmo na análise aqui proposta os termos se fizeram claros. Segundo eles, há uma confusão social entre ambos os nomes, mas os mesmos não conseguiram explicá-la, tendo em vista o trecho confuso: “A internação, quando necessária, deve ser de curta duração, respeitando os direitos civis dos cidadãos. O que há de fato é uma confusão entre reforma psiquiátrica (que significa, por alguns, negar a própria disciplina e a existência do transtorno mental) com reforma da assistência psiquiátrica, que deve sim ser de base comunitária”.

Essa não foi a única vez que o periódico citou a reforma psiquiátrica. O termo também aparece em um artigo publicado no dia 26 de janeiro e assinado pelos psiquiatras Cláudio E. M. Banzato, Paulo Dalgalarrondo e Ana Maria Galdini Raimundo Oda sobre ‘a importância de um olhar atento da ciência para a saúde mental’. Em meio a bastante crítica, reforçam a necessidade de apoiá-la: “Ser a favor da reforma psiquiátrica é ser a favor do espírito que a anima, não de suas falhas e deficiências. Avançar politicamente é consolidar essa agenda e tornar possível o avanço técnico necessário”. Podemos analisar, entretanto, que não há um recorte histórico profundo que explique aos leitores do que se trata, de fato, o termo. Há um discurso empoderador e extremamente importante, porém fica a sensação de que faltam informações mais concretas na construção dessa narrativa.

Outro mérito da cobertura do veículo cabe ao artigo ‘Impacto na saúde mental será sequela mais devastadora da pandemia’, redigido pelo doutor Drauzio Varella e publicado no dia 12 de setembro de 2020. Nele, o médico e cientista ratifica a importância de não menosprezar transtornos psicológicos, principalmente durante o período tão atípico que vivemos. A partir de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), destaca o aumento de taxas de suicídio em países de média e baixa renda. O especialista ainda ressalta recortes de gênero e raça ao informar que a cada dez casos fatais seis ocorrem com jovens negros e que esta também é a maior causa de óbito na população feminina de 15 a 29 anos.

Para dar ao texto mais embasamento, Varella cita dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que mostram que cerca de 90% dos suicídios estão relacionados a distúrbios mentais.  E expressa ainda uma preocupação com relação ao SUS: “[…] nada leva a crer que a prevalência entre nós diminuirá, caso as condições sociais se mantenham as mesmas e não superarmos as dificuldades do SUS para dar atenção a esse contingente”. Por fim, problematiza a falta dos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, em algumas cidades, e a ausência de estrutura da rede pública para oferecer psicoterapia e atenção psiquiátrica a pacientes com depressão, transtorno bipolar e outros na fase inicial de evolução.

No jornal O Globo, de 23 de dezembro de 2020, observamos uma matéria que denuncia a precariedade e o abandono de uma unidade do CAPS de atendimento exclusivo à população infantil, localizada na cidade de Niterói. O texto não se esforça em trazer dados que poderiam ser importantes para traçar o panorama da saúde mental infantil em território nacional, sequer expõe um histórico do Centro e o impacto causado à comunidade. Porém, apresenta pontualmente falas de mães – cujos filhos são atendidos pela unidade -, que evidenciam o descaso do poder público, humanizando, desse modo, a abordagem.

Um ponto forte da cobertura do jornal Brasil de Fato foi a apuração e contextualização sobre a luta antimanicomial, com quatro publicações relativas ao tema dentro do período de apuração para esse texto. Em ‘Cortes em programas de saúde mental reacendem lógica de manicômios, diz pesquisadora’, com a entrevistada Mônica Nunes, integrante do Grupo Temático de Saúde Mental da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o veículo explica toda a jornada da luta antimanicomial brasileira e como as novas medidas propostas pelo governo de Jair Bolsonaro vão na contramão da reforma psiquiátrica em relação à qual o país havia avançado nas últimas décadas, além de elucidar, de uma forma humanizada, questões sobre o sofrimento psíquico. Essa contextualização ajuda os leitores que desconhecem o tema a entenderem facilmente a situação.

Infelizmente, as matérias desse veículo da mídia independente falham em um aspecto crucial: não entrevistam os verdadeiros sujeitos dessas histórias. É muito comum lermos textos onde os entrevistados são profissionais da saúde mental, que falam sobre os sintomas de seus pacientes ou familiares e suas vivências com membros neurodivergentes. Porém, quase nunca lemos o que o paciente realmente tem para compartilhar. A mídia, historicamente, não cede a eles o papel de protagonistas em suas próprias histórias. Esse padrão de comportamento dos veículos contribui para um estereótipo infantilizador e incapacitante daqueles que apresentam transtornos mentais.

Recentemente, uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) realizada em onze países apontou que o Brasil lidera o número de casos de ansiedade e depressão durante a quarentena. Quando se dedicou a abordar o tema, O Globo limitou-se a produzir matérias que tinham funcionalidade semelhante à encontrada em manuais de autoajuda para a superação dessas doenças. Algumas eram informes publicitários de uma rede hospitalar privada, outras reuniram especialistas que traziam dicas para os assinantes evitarem o desgaste mental. Os dados expostos poucas vezes eram problematizados e aprofundados.

Porém, o corajoso artigo de Roberto Lent, neurocientista e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), dignifica a cobertura até então simplória oferecida pelo jornal sobre as populares ansiedade e depressão. Lamenta-se que o seu acesso não esteja aberto ao público, mas aos assinantes, o mesmo acontecendo com a versão impressa. Ao longo do texto, o estudioso traz uma pesquisa realizada por economistas americanos que desmente o preconceituoso senso comum de que os diagnósticos dessas doenças acometem apenas os ricos.

Pelo contrário, os mais pobres, muitas vezes sem opção, são os que mais se arriscam – seja em locais de trabalho insalubres ou em transportes públicos. Desse modo, são também os mais propensos a adquiri-las. Lent, então, defende que haja “políticas públicas múltiplas, não só voltadas para o aumento da renda, mas também para o cuidado com a saúde mental’’. Contudo, um dado revelador trazido pelo professor aponta que “os investimentos em saúde são baixos nos países pobres, e, além disso, os gastos com saúde mental são cerca de 80% menores que os destinados à saúde física. Isso ocorre em todos os países, pobres e ricos”.

Cabe a ressalva que, como outras mídias das Organizações Globo, o jornal produziu bom conteúdo sobre: as jornadas exaustivas de profissionais de saúde, que estão na linha de frente do combate à pandemia; os trabalhadores que puderam adaptar seu ofício ao home office; trabalhadores ligados aos serviços essenciais e até mesmo os não incluídos nestes,  que não tiveram opção a não ser a exposição ao risco de contágio pelo coronavírus. Entretanto, o jornal se furta de culpabilizar as atuais relações do controverso mercado de trabalho pelo cenário de desolação vivido. Não problematiza, nem mesmo quando a saúde mental dos trabalhadores deveria ser defendida e o isolamento social cumprido integralmente, já que tal problematização provocaria tensões ainda maiores entre veículos de imprensa tradicional, governo, mercado financeiro e setor empresarial.

A Folha de S.Paulo, contudo, além dos artigos citados no início dessa análise, se destaca ao optar por narrativas humanizadas e contextualizadas. Apesar de certa ausência de uma cobertura aprofundada sobre outros transtornos, encontramos diversos textos que expõem o aumento da depressão, ansiedade e estresse atualmente de maneira correta. Apenas no mês de janeiro desse ano, foram publicadas quatro matérias sobre saúde mental na pandemia, em um tópico exclusivo para isso chamado “Depressão”.

No dia 26 de janeiro, a questão da saúde mental no ambiente de trabalho foi levantada. O texto ‘Pandemia aumenta adesão a programas de bem-estar e apoio psicológico no trabalho’ apresenta formas que as empresas utilizaram para “driblar” o desgaste mental de seus funcionários, além de introduzir personagens como Renata Paparelli, professora de psicologia do trabalho da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e Paulo Cardoso, vice-presidente de soluções de saúde da consultoria de gestão de riscos Aon Brasil, para reafirmar a importância de um suporte psicológico nos postos de trabalho. Segundo pesquisas conduzidas pela própria Aon durante o segundo semestre de 2020, a pandemia fez crescer a necessidade do oferecimento de bem-estar para colaboradores para 72,4% das mais de 270 empresas procuradas.

Já o Nexo, ao longo do mês de dezembro, publicou uma série de reportagens denominada “20 características da atualidade que foram escancaradas em nosso tempo”. Um dos capítulos foi “A saúde mental minada pela exaustão, ansiedade e solidão”, cujos hiperlinks direcionam o leitor a matérias antigas que trazem explicações didáticas sobre alguns transtornos psíquicos mais populares, porém estigmatizados. Outros hiperlinks possibilitam que o assinante leia textos sobre a saúde mental de crianças e adolescentes, por exemplo, além de reunirem cinco conteúdos do próprio jornal e da Gama Revista que também dialogam com o tema. Na matéria destacada acima, o Nexo indica que o leitor veja como estava a situação de esgotamento mental dos trabalhadores em abril.

O Brasil de Fato, já mencionado, também trouxe à tona os impactos que a pandemia causou à saúde mental dos profissionais de saúde na matéria ‘Qual o peso da pandemia para os profissionais da saúde?’. O texto relata como a preocupação com a estabilidade mental desses profissionais foi deixada de lado conforme a pandemia se prolongou. As experiências e opiniões dos diversos profissionais entrevistados dão um ar mais humanizado ao texto e fazem com que o recorte e angulação escolhidos se destaquem dentre outras matérias sobre a pandemia e a saúde mental.

Uma questão delicada para a terceira idade

Na Folha de S.Paulo, um olhar atento à situação dos próprios idosos na pandemia foi encontrado na matéria ‘Cresce ansiedade entre os idosos na pandemia’. Ao longo do texto, foi citado levantamento feito pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, com 180 idosos por telefone, que revelou um aumento de 15,38% nos níveis de ansiedade durante a pandemia do novo coronavírus. Além disso, o texto traz imagens e entrevistas com algumas dessas pessoas, o que humaniza a narrativa. Uma delas foi a auxiliar de enfermagem aposentada Edeleide Pereira de Almeida, 63 anos, vítima de uma depressão potencializada pelo isolamento. “Cheguei ao ponto de não dormir e me alimentar com dificuldade. Fiquei em uma situação muito difícil porque moro sozinha e não estava fácil ficar aqui só entre quatro paredes, sem sair. Meu nível de ansiedade ficou muito grande e tive muito medo. O que me socorreu, ajudou e reanimou foi a interferência do pessoal do PAI (Programa de Atendimento ao Idoso)”, relatou.

Assim como a Folha, outra grata surpresa foi a abordagem dada aos cuidadores de idosos pelo jornal O Globo. Sabe-se que a velhice implica em adaptações, limitadoras na grande maioria das vezes, que, num contexto como o da pandemia, podem ser ainda mais difíceis de lidar. Profissionais como os cuidadores não foram dispensados, se analisarmos os casos de maneira geral. E então, diante de um vírus com potencial letal, o medo da morte pode crescer significativamente. Familiares, amigos e vizinhança sentem o luto, mas os cuidadores também, porque a linha tênue entre a atividade profissional e o vínculo afetivo existe. Durante um momento tão difícil, a dor não necessariamente precisa estar atrelada às consequências do vírus que levam à morte do idoso. Outras causas de óbito impactam sobremaneira. A abordagem foi humanamente delicada e jornalisticamente objetiva, como deve ser.

Raça, território, gênero e classe: especificar para qualificar

Lamentavelmente, no jornal O Globo, apenas um importante recorte social foi utilizado com maior destaque: o gênero. Na plataforma Celina, do próprio jornal, pretendida como “um espaço para debater, em profundidade, os temas ligados a mulheres, mas também outras questões de gênero e diversidade”, dois conteúdos chamam a atenção. Apenas dois porque, dentre o período analisado, foi essa a quantidade de matérias encontradas no jornal voltadas à saúde mental das mulheres. Uma delas, apesar de bastante substancial, é material traduzido do inglês Independent: ‘Estudo inédito conclui que pandemia de coronavírus desencadeou uma crise global na saúde mental das mulheres’.

A pesquisa não leva em consideração a questão da raça, assim como a matéria ‘Entenda por que o confinamento faz as mulheres se sentirem mais tristes e estressadas’. Ambas foram publicadas em setembro e, apesar da proposta de aprofundamento e diversificação, não houve um olhar dos editores e repórteres que contemplassem essa questão. No tocante à ‘território’ e ‘classe’, conforme nossa metodologia, o veículo não publicou uma matéria sequer que enfatizasse ao público as condições psicológicas de moradores das periferias e comunidades do Rio de Janeiro e do Brasil, nem se interessou em mostrar como as relações entre renda e bem-estar mental estão profundamente ligadas e são a causa de grandes preocupações da população brasileira.

Em contrapartida, a Folha de S.Paulo fez um recorte importante de raça, classe e território na matéria do dia 12 de janeiro sobre a depressão agravada com a pandemia nas periferias de São Paulo. Essa, sem dúvida, é uma das mais completas e humanizadas reportagens do veículo, a começar pela história do jovem poeta Flávio Dias Jr., que cometeu suicídio devido ao seu estado depressivo. A reportagem utiliza uma fotografia do mesmo e ao fim expõe uma lista de coletivos e grupos que se mobilizam para mudar a realidade nas favelas paulistanas.

Dados do Observatório De Olho Na Quebrada, em parceria com pesquisadores da área da saúde pública da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), embasam o texto. Dos 281 moradores ouvidos da periferia de Heliópolis – a maioria composta por mulheres -, 86% se sentem deprimidos e 90% disseram não desfrutar de atividades normais nesse período de isolamento. Além disso, a reportagem afirma que adolescentes e jovens negros têm maior chance de se matarem, com base em informações da cartilha Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros, lançada pelo Ministério da Saúde em 2018. “Em todos os anos analisados pelo órgão, o número de suicídios foi maior entre adolescentes e jovens negros quando comparados com brancos”.

Quem não pôde parar

Uma reportagem do dominical Fantástico, da Rede Globo, adaptada e reproduzida em texto pelo O Globo, em 6 de setembro de 2020, mostrou casos de médicos, enfermeiros e auxiliares em unidades de saúde que lidam com ‘burnout’ – uma síndrome do esgotamento profissional -. As condições de trabalho, certamente, não são as mais fáceis, sobretudo agora. A forma como os pacientes chegam nas emergências, as cenas com que os profissionais precisam se deparar certamente levam à condição de esgotamento. É possível perceber no texto uma crítica, apenas velada, à ausência de estrutura, de responsabilidade do Estado, e à falta de mais profissionais, cujas contratações também são de responsabilidade dos governos, sejam eles das esferas municipal, estadual ou federal. Há de se destacar o notório esforço do jornal em trazer pesquisas e dados, mas as fontes consultadas tendem a uma análise moderada sobre os problemas apontados. Questionamo-nos se intencionalmente ou não.

Os desafios do SUS são para ontem

Diariamente, assistimos notícias sobre a falta de leitos de UTIs nas grandes cidades brasileiras e as filas de espera para internação devido à Covid-19. Ao ultrapassar a marca de 285.000 mortes pelo coronavírus, não se pode negar o colapso da saúde no Brasil, tanto na rede pública quanto na rede particular. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em setembro passado, revelam que sete em cada dez brasileiros não possuem plano de saúde privado, ou seja, são mais de 150 milhões de pessoas dependendo exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). Esses índices são referentes ao ano de 2019. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) calcula que mais de 320.000 beneficiários perderam a assistência médica, de março a julho de 2020, por causa do desemprego impulsionado pela pandemia. Agora sobrecarregado, o SUS necessita de uma grande mobilização da sociedade civil no que diz respeito à reivindicação da melhoria da sua estrutura e da necessidade urgente de expansão do Sistema. Afinal, estamos aqui falando de um atendimento universal destinado a mais de 210 milhões de brasileiros que não pode ser sucateado e sabotado pelas autoridades vigentes. 

Considerações finais

Ainda que matérias específicas de cada veículo possam ser apontadas como essenciais para o entendimento mais completo da saúde mental, há falta de recortes mais precisos que ajudem na construção desses discursos. Não basta que a sociedade entenda apenas o macro, mas não consiga distinguir “estresse” de “burnout”, por exemplo. Tanto na mídia hegemônica como nos veículos de mídia alternativa, houve explicações rasas sobre esses termos. De que adianta absorvermos a ideia de que precisamos nos cuidar sem entendermos a distinção entre cada um dos estados psíquicos? Por mais que tenhamos destacado textos extremamente coesos e alguns com narrativas humanizadas, a sensação de incompletude ainda paira no ar. É preciso que a mídia entenda e faça chegar ao leitor informações que não reduzam saúde mental à ansiedade e depressão.

 

Por Jasmine Mendonça, Lucas de Andrade, Luiz Eugênio de Castro e Mayara Dias, sob orientação da professora Ivana Barreto.

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