A bala nunca esteve perdida

“Este não é um corpo negro”, em referência à pintura do artista surrealista René Magritte,“Ceci n’est pas une pipe” (Isto não é um cachimbo). Arte: Pedro Henrique Cabo

Kathlen Romeu tinha apenas 24 anos, era design de interiores e estava grávida do primeiro filho quando foi morta em meio a uma ação policial em Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio. Mais um trágico episódio da institucionalização da necropolítica de segurança ou, no português mais claro, o “abate” aos corpos negros. Elza Soares já cantava que existem vidas que valem menos do que outras: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Uma frase forte e que afirma a obviedade que está presente nas mesmas balas “perdidas” que sempre encontram os mesmos corpos. Só em 2021, segundo levantamento da plataforma de dados Fogo Cruzado, houve 16 tiroteios em Lins de Vasconcelos, com 3 mortos e 1 ferido. Kathlen foi mais uma que entrou para essa estatística. Segundo moradores, o disparo partiu de policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do bairro. 

Esse tipo de tragédia faz parte do cotidiano das periferias da cidade. A forma como são feitas as operações policiais coloca os moradores em risco. Após a morte do adolescente João Pedro, em casa, durante uma operação policial em São Gonçalo, no ano passado, uma medida foi estabelecida: estariam restritas às operações não urgentes durante a pandemia. O decreto foi estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal, por meio da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas. Entretanto,  não tem sido cumprido com êxito.

A gestão da segurança pública no Brasil segue sem pudor algum, sob comando de mãos violentas e racistas. A cada 10 jovens mortos pela polícia, 8 são negros. Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020 apontam como essa população é a principal vítima de violência no país. E, nesse contexto, o jornalismo consciente deve ser realizado a partir de questionamentos e problematizações sobre uma realidade tão dura. Porém, não é o que observamos em diversos veículos noticiosos: há muito sangue e pouca dor, muito espetáculo e pouco luto.

Abordagem humanizada ou sensacionalista?

A morte de Kathlen gerou comoção nas redes sociais e, no dia seguinte, 9 de junho, estampou a primeira página de diversos jornais. Entretanto, no jornal O Dia não havia nada. Nenhuma menção ao caso. Manchetes sobre vacinação, futebol, política e entretenimento estavam destacadas, mas nada remetendo a extermínio de jovens negros pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Na página 4, o fato dividiu espaço com outras três histórias: uma sobre mutirão de coleta de DNA, que seria feito pela Polícia Civil; outra sobre a audiência do violoncelista Luiz Justino, que seria realizada naquele dia. Por último, um box contando a morte de um ex-candidato a vereador. O caso de Kathlen estava ali no meio, sem muita relevância.

Já no dia 10 de junho, o caso finalmente ganhou espaço na primeira página do veículo, com um pouco mais de destaque. Quanto ao texto, a história preencheu toda a página 3, junto a uma grande imagem dos seus pais segurando um cartaz com a sua foto, lamentando a morte da filha. Dessa vez, a matéria foi bem menos objetiva que a do dia anterior, com um tom muito mais sentimental. Entre a manchete e seus subtítulos, havia até mesmo um box falando sobre os nomes escolhidos para o bebê, “Maya ou Zayon”, com trechos sobre a gravidez, postados por Kathlen em seu Instagram. Outro box trazia um desabafo feito por seu namorado, o tatuador Marcelo Ramos, na mesma rede social.

Dessa vez, além de receber um destaque muito maior, o caso foi tratado de forma mais “humanizada”, com foco na vida da vítima e na dor de seus familiares. Muitas vezes, a informação é substituída pela emoção, podendo se tornar um exagero e caminhar no sentido do sensacionalismo. Um sensacionalismo repleto de cargas emocionais que nos faz pensar: até onde vai a promoção através da dor alheia? É compreensível que o jornalista se emocione com uma cobertura mais dramática, o problema é quando essa emoção é canalizada na intenção de impactar a audiência e gerar um lucro maior para a empresa.

Um dia após a morte da jovem, na primeira página da edição do Extra, uma foto de Kathlen grávida, com a mão na barriga, ganhou destaque. Ao lado dela, uma manchete dramática e comovente que foge do sentido estritamente  denotativo: “Mensagem de amor antes da tragédia”. A recapitulação do crime – não chamaremos de “fatalidade” – é feita logo abaixo, na chamada, explicitando o local em que ocorreu e o tempo de vida do bebê, também morto: 14 semanas. O veículo, tal como O Dia, optou por uma angulação com uma carga mais dramática  – e inevitavelmente invasiva – ao expor a última postagem da jovem em suas redes sociais, horas antes da morte, onde festejava a gravidez. A “mensagem de amor”.

O título da matéria, “Uma mãe, seu bebê e o inexplicável”, tem certo tom novelístico, como se a história real e triste fosse um perfeito enredo de drama. Por mais que se tenha tido uma tática para prender a atenção do leitor a um assunto relevante, soou indelicada e até mesmo ambígua, já que o termo “inexplicável” poderia omitir o fato de que houve uma operação policial. O que seria “inexplicável” nessa tragédia, principalmente dentro de um contexto jornalístico? 

O primeiro parágrafo narra os sonhos conquistados em vida pela jovem, como por exemplo o curso de design. Além disso, mostra sua ansiedade em ter o primeiro filho, a preocupação com o enxoval e publicações diárias com legendas carinhosas ao primogênito. Uma abordagem que nos causa diversos sentimentos como revolta, compaixão e identificação. Kathlen era uma mãe empolgada, assim como muitas outras no Brasil. Kathlen tinha desejos e metas como qualquer pessoa. O veículo fez questão de expressar o imaginário de sua identidade. É possível que ocorram leituras com interpretações diferentes no que se refere ao texto nada “frio”, já que as frases contém uma alta carga de emoção e podem soar como sensacionalistas para algumas pessoas: “Suas conquistas desmoronaram em segundos por causa da violência no Rio”. “Na tarde de ontem, acabou sendo alcançada pela violência da qual tanto tentava se livrar”. A escrita é dramática, romantizada. 

Com isso, questionamo-nos se a fórmula jornalística utilizada pelo Extra foi a melhor escolha, embora aqui consideremos o fato de que se trata de um veículo popular, sendo o sensacionalismo uma característica de jornais desse tipo . Ao mesmo tempo que preza por uma narrativa objetiva, que oferece  dados ao leitor, dando “nomes aos bois” e detalhes da vida da vítima  – que deixa de ser  mais um número -, pesa na mão no que diz respeito à utilização de elementos  que despertam a emoção dos leitores. A linha é muito tênue e, apesar de ser uma matéria bem construída e expositiva, corre o risco de levar a leituras exageradas. 

Em entrevista à equipe do Observatório de Mídia da UFRRJ, Rapha Prado, jornalista e participante do “Nós da Imprensa”, podcast que discute o jornalismo, debatendo a partir de uma visão crítica sobre a mídia, comentou sobre o caráter desses veículos e suas angulações. Ele explicou que, por ser uma menina jovem, bonita e grávida do primeiro filho, sua história teve um olhar diferenciado e romantizado dentro da cobertura midiática. “É um elemento (a romantização) que o jornalismo adora. Nossa, olha esse conto de fadas que acabou! E isso não discute o problema no cerne. Uma operação policial matou uma jovem! Como todos os dias mata, inclusive.” – ressaltou.

O jornalismo em uma sociedade racista

A primeira página do jornal Meia Hora apresentou um novo elemento em comparação às do Extra e do jornal O Dia: o uso da exemplificação de outros casos. Contudo, esses casos são crimes de feminicídio e agregam outro sentido à morte da jovem, distanciando o verdadeiro contexto social do crime – novamente crime, não fatalidade.

Acima da manchete “Basta de violência” — um pedido direto, porém abstrato — está a frase: “Morte de mulheres apavora o Rio”. A generalização destas problemáticas afasta a necessidade de uma crítica aprofundada do racismo e da necropolítica, elementos bases da Segurança Pública do Rio de Janeiro. Kathlen, grávida de 4 meses, havia deixado o Complexo do Lins, local de sua morte, por medo da violência. Violência esta que não é abstrata, possui direção e alvo: corpos pretos e periféricos. Estatísticas do Instituto Fogo Cruzado apontam que 15 grávidas foram baleadas na Região Metropolitana do Rio desde 2017 e 7 delas, assim como Kathlen, morreram. Não é um caso isolado, não é exceção.

A desumanização das ações policiais e do jornalismo, caracterizada em sua omissão e conformidade diante desta realidade, corrobora para que esta pauta não esteja na agenda de discussões urgentes da sociedade. Quando a morte de corpos negros ocupará a primeira página inteira de um jornal? Quando a inconcebível frequência dessas mortes irá parar a cidade, o país? Quando o genocídio negro será pautado como projeto de Estado? Por enquanto, o assassinato de Kathlen foi romancizado pelo Extra, não apareceu na “vitrine” de O Dia e dividiu a primeira página com a Seleção Brasileira de Futebol e suas vitórias no Meia Hora.

O entrevistado Rapha Prado relatou como o racismo está entranhado em nosso cotidiano e discorreu sobre o papel fundamental do jornalismo para romper com essa estrutura: “A maneira como o jornalismo aborda esses temas é um reflexo dessa sociedade e faz com que ela continue sendo assim. O papel do jornalismo, na minha visão, é discutir estes temas, problematizar estas questões. Quando não faz isso, a gente falha.” Não podemos falhar mais.

 

Por Gabriele Freitas, Jullyana Barreto, Luiz Eugênio de Castro e Pedro Henrique Cabo, sob orientação da professora Ivana Barreto.

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