A passos lentos, o Continente Africano ganha mais espaço na mídia brasileira

Em determinado momento da live realizada pelo Observatório de Mídia da UFRRJ com o mestre em Relações Internacionais e professor da PUC-RJ Alexandre dos Santos, em 17 de junho, ele destacou que a cobertura da mídia brasileira sobre o continente africano já foi pior: “Quando eu comecei a me interessar pelo Continente, em meados dos anos 80, começaram a sair na mídia no Brasil as imagens de crianças passando fome na Etiópia, o que impactou o mundo inteiro. Foi a época de um despertar e uma tentativa de fazer algo diferente, a partir de campanhas de artistas como USA for África para angariar fundos e ajudar no combate à fome, aos conflitos”.

Alexandre, um dos autores do livro África no mundo contemporâneo, articulista do site jornalístico e responsável pelo projeto ConexãoÁfrica, reconhece, porém, que ainda falta muita contextualização nas notícias sobre a África. Agora, com os maiores protestos na África do Sul, desde o fim do apartheid, há 27 anos, podemos constatar que a análise do docente está mais do que certa. Há, de fato, uma cobertura que vêm sendo ampliada, embora a passos lentos. Contudo, a contextualização, tão necessária ao entendimento correto e aprofundado dos fatos, ainda ocorre de forma tímida.

Uma pesquisa no Google, do dia 18/7, com os termos “protestos África do Sul”, revela que os veículos digitais CNN Brasil, UOL, G1 e Veja postaram textos sobre a situação no País no dia 13 de julho. Curtos, contextualizaram de forma bastante breve o tema, abordando a trajetória de Jacob Zuma na presidência, os possíveis motivos de sua condenação, além de breves números da região depois da Covid-19. Vale ressaltar que, entre esses veículos, o texto da Veja se destaca com uma maior contextualização, já que abordou a trajetória de Zuma desde 1994 : “Zuma já havia sido preso pelos governantes de minoria branca antes de 1994 por seus esforços para tornar todos os cidadãos iguais perante a lei, fato que o eleva à condição de herói nacional por parte da população.”  Cita, ainda, outras razões para o contexto atual de protestos: “Além de sua prisão, os baixos níveis de renda e o desemprego — 32,6% entre a força de trabalho e 46,3% entre os jovens — são vistos como estopim para a crise atual.” Além disso, a matéria de Veja salienta a preocupação com a disseminação de notícias falsas, possíveis motivos para o incitamento dos protestos. Porém, em todas as coberturas, incluindo a da citada revista, entendemos faltar um histórico sobre a África do Sul, que certamente levariam o leitor a um entendimento melhor do atual cenário do País.

A matéria do G1 não se distanciou do factual, relatando a situação no País, os números e razões dos mesmo, além de uma parte, também suscita, dedicada à trajetória de Jacob Zuma frente ao governo sul-africano. 

Já o texto do Uol Cultura, ofereceu mais dados aos leitores no tocante ao contexto da região depois do início da Covid-19, ao traçar um breve quadro da África do Sul hoje: “A pandemia agravou a crise econômica no país. Cerca de 55% dos sul-africanos estão em situação de pobreza. A maioria é de negros, que são 80% da nação e a miséria afeta diretamente 63% das crianças. Existe o temor de que o abismo socioeconômico entre negros e brancos traga de volta à tona questões raciais ainda latentes da época do apartheid.” Todavia, não abordou, como fez o G1, a trajetória de Zuma.

Semelhante à cobertura do G1 foi a da CNN Brasil: “África do Sul registra 72 mortos após protestos por prisão de Jacob Zuma“, voltada em especial para as razões da prisão do ex-presidente.

África do Sul – Saqueadores em Vosloorus atearam fogo em um shopping durante os protestos Pró-Zuma, em 13 de julho de 2021. Sharon Seretlo/Getty Images

A análise dos três textos nos leva à conclusão de que faltou à cobertura inserir informações sobre a história da África do Sul, pelo menos do período colonial até os dias de hoje. Isso em virtude de estarmos falando de um Estado estratégico, que influencia as relações no continente africano, sem esquecer que o mesmo tem ampliado sua visibilidade mundial, quer seja a partir do BRICS ou devido aos episódios que têm envolvido o presidente Zuma desde que ele deixou o cargo no início de 2018.

Em outras palavras, para entender a África do Sul hoje é mister lembrar que entre os séculos XVI e XIX,aproximadamente mais de 10 milhões de africanos foram escravizados e enviados à América e ao Caribe para trabalhar nas colônias do “Novo Mundo” ( quase a metade – 4,8 milhões – para o Brasil). Lembrar, ainda, que em virtude da corrida imperialista (final do século XIX) das principais potências européias, que levou à Conferência de Berlim e à partilha da África. Sem consultar as populações nativas do continente, os europeus traçaram fronteiras e definiram qual país poderia tomar conta de qual região. Na foto a seguir, as linhas retas que até hoje demarcam as áreas dos Estados africanos mostram que, ao traçar fronteiras, os europeus desconsideraram os territórios dos nativos. Desse modo, foram afastados  povos amigos e incentivados conflitos entre rivais. Tudo como parte de uma estratégia de dominação que desviou a atenção dos africanos, facilitando a ocupação europeia.

 

A Globonews 

 

O mérito, na cobertura analisada até aqui, ficou por conta do programa Globonews Internacional.  Apresentado no domingo à noite, 18, ao vivo, pelos jornalistas Marcelo Lins e Guga Chacra, dedicou 12 minutos para mostrar e comentar a situação atual na África do Sul. E ainda chamou os assinantes para assistirem, na mesma noite, ao documentário Maale: desejo de paz , com histórias comoventes sobre moradores do Sudão do Sul, país mais novo do mundo. O projeto, liderado pelo repórter cinematográfico Alberto Fernández e pelo jornalista Mário Cajé, que visitaram o país em março de 2020, antes da pandemia chegar lá, mostra as marcas na população provocadas pelas guerras, conflitos étnicos na região Nordeste desde 2011, uma guerra civil tendo como pano de fundo disputas políticas no final de 2013 . 

Fica a dica de Maale: desejo de paz, para conhecer mais sobre o Sudão do Sul. Sobre a África.

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