Refúgio para quem?

Por Mariana Rodrigues

Aqui, no Observatório de Mídia da UFRRJ, a primeira análise publicada foi relativa à história de uma parcela invisibilizada do mundo: o continente africano. Assim,  trouxemos à tona, com o texto ‘Por uma descolonização do jornalismo’, uma antiga temática: o eurocentrismo e sua presença na prática jornalística. Agora, voltamos a falar do eurocentrismo que domina nosso olhar latinoamericano, instigados pelo texto do colunista do Uol, Jamil Chade, publicado no dia 2 de março, sobre o mundo que encontraríamos no pós-carnaval. Em certa altura, ele deixa explícita a diferença de tratamento que atualmente os refugiados ucranianos recebem ao chegarem em outros países, quando comparamos com a forma como refugiados de outras regiões do mundo são recebidos. É neste ponto que precisamos nos ater.

No dia 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia, começando uma guerra geopolítica que, até o momento, dura mais de 40 dias. Os cidadãos ucranianos, atingidos pela cruel realidade que uma guerra constrói, fugiram de seu país e passaram a buscar refúgio em países dispostos a os acolherem. Se à primeira vista pode parecer a mesma história de outros refugiados, há, de fato, uma grande diferença: a nacionalidade. Ao que parece, olhos azuis, peles claras e cabelos loiros são parâmetros para a solidariedade.

Assim, se por um lado, a tristeza trazida nos olhares de quem é obrigado a deixar sua pátria, sua família, sua vida para trás não reconhece as fronteiras criadas pelos homens, por outro, o fantasma da colonização ainda assombra o mundo, fazendo com que os refugiados ucranianos sejam acolhidos de braços abertos. Com bem menos sorte, refugiados sírios, afegãos, venezuelanos ou de quaisquer lugares que não sejam europeus, até são recebidos, mas com portas e janelas fechadas, restando-lhes as ruas como abrigo.

Pesquisa

O pesquisador doutor da Universidade de Brasília, Leandro de Carvalho, coordenou, em 2017, uma pesquisa sobre as oportunidades de emprego para refugiados no Brasil. A pesquisa foi realizada por meio de um questionário direcionado a gestores de Recursos Humanos. Em dado momento, os profissionais foram convidados a responderem “quais as características e comportamentos associavam aos profissionais vindos de outros países”. Das respostas obtidas, 74,5% relacionaram força física aos profissionais vindos da África, enquanto apenas 10,5% os relacionaram com capacidade de liderança. Em contrapartida, 9,8% associaram profissionais europeus à força física, e 49,3% à capacidade de liderança. Esses resultados deixam claro como nossos olhos possuem um filtro que escala a Europa como protagonista, enquanto o resto do mundo – salvo alguns países, como EUA – são apenas coadjuvantes. Esses pensamentos não são naturais, nem tampouco pretendem ser. São olhares treinados pela colonização para reconhecer como igual aquele que colonizou; o diferente, que é relegado aos lugares de menor prestígio, é o que, ironicamente, enxergamos ao olharmos no espelho.

Refugiados e a mídia brasileira

Quem de nós já não se pegou pensando o que acha do Brasil receber refugiados? Discussões calorosas giram em torno do “aceitar ou não aceitar” que pessoas venham fugidas de seus países de origem para morarem, trabalharem e conviverem em solo brasileiro. Ainda que o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) tenha mostrado que o Brasil acolheu, apenas entre 2019 e 2020, 46,8 mil refugiados, os rostos ainda se retorcem quando esse assunto é pautado na mídia. O Brasil é um país que admite a entrada de refugiados, mas não abriga, não ampara. Um exemplo recente é o caso de Moïse Kabagambe, jovem refugiado congolês que foi assassinado por cobrar o pagamento de dias trabalhados em um quiosque no Rio de Janeiro.

O caso de Moïse lançou luz a um dos principais problemas enfrentados pelos imigrantes. Uma breve pesquisa por palavras-chave como ‘xenofobia’ e ‘refugiados’, em alguns sites jornalísticos de grande alcance, nos dá uma noção de como o assunto é mencionado na mídia. Em se tratando de imigrantes europeus, as notícias giram em torno do acolhimento e da hospitalidade; poucas vezes a palavra ‘xenofobia’ é relacionada a pessoas brancas. Já as matérias sobre homens e mulheres vindos de lugares como África, Oriente Médio, América do Sul e Ásia são quase sempre relacionadas à falta de emprego, ao racismo, à intolerância religiosa e outras formas de agressão.

No G1, no mês de março de 2022, das matérias publicadas que possuem relação com a palavra xenofobia, há um contraste nítido entre duas delas. Uma, publicada em 18/03/2022, fala sobre um imigrante ganês que sofreu xenofobia no restaurante Bom Prato, na cidade de Cubatão, em São Paulo. Já a outra, do dia 26/03/2022, é intitulada “Comunidade ucraniana em SC se une para ajudar vítimas da guerra”. A divergência entre os conteúdos denuncia, também, as divergências na tão elogiada hospitalidade brasileira.

Afinal, hospitalidade para quem? Com certeza, não é para os mais de 2000 refugiados venezuelanos que, em setembro de 2021, estavam desabrigados na cidade de Pacaraima, em Roraima, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM). A cidade que faz fronteira com a Venezuela recebe migrantes todos os dias, mas não possui infraestrutura para abrigar a quantidade de pessoas que concluem a travessia. Sem emprego e sem acesso à educação, os refugiados dependem da caridade de pessoas e instituições. Matérias sobre o caos migratório que Roraima estava enfrentando foram publicadas na Folha de São Paulo, e, mais uma vez, as notícias não mostravam o Brasil como um exemplo de “acolhida”. Pelo contrário, traçam um perfil quase vexatório quanto ao recebimento dos refugiados. A matéria “Número de refugiados venezuelanos desabrigados explode na fronteira brasileira”, publicada em 12 de setembro de 2021, mostra numericamente a situação que Roraima enfrentava.

Também é bom destacar a coluna de Sandra Cohen, na editoria Mundo, do G1, onde foi publicado, em 7 de março de 2022, o texto “Por que governos europeus com retórica xenófoba e racista contra refugiados agora se destacam pela boa acolhida aos ucranianos?”. A jornalista ressalta como países europeus demonstram solidariedade aos refugiados que escapam dos ataques russos, mas, por outro lado, adotaram medidas contra a recepção dos imigrantes chegados da África e do Oriente Médio.

Vejam bem, não é que o sofrimento dos ucranianos seja inferior só por serem europeus, mas também não é maior do que o sentimento de outros seres humanos que precisaram reconstruir suas vidas em um novo chão. Nesse mundo de guerras, doenças e desafetos; de soldados que não querem matar, de civis que não querem morrer; mais do que nunca, nos resta lembrar de Geraldo Vandré quando escreveu esses versos: “Ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão”. Que a paz e a solidariedade sejam mais do que palavras bonitas que usamos em tempos sombrios. Que sejam o sangue que corre nas veias e faz pulsar o coração da humanidade.

 

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